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Expatriados e os desafios para a Gestão das Organizações no Brasil


 
Expatriados e os desafios para a Gestão das Organizações no Brasil
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A visão do Brasil pela perspectiva dos expatriados

Ao participar do Fórum CEO Brasil e do Fórum de discussões com Expatriados, um evento que significa adquirir novas experiências e ter aprendizado contínuo, surgiu uma questão muito importante que precisa ser considerada: quais as dificuldades de um expatriado em gerir uma empresa brasileira, já que possuímos uma cultura própria e um sistema burocrático e moroso? Entender estas dificuldades é importante porque o sucesso que os expatriados possuem em seus negócios contribuem para a expansão e o desenvolvimento comercial do Brasil.

 

No bate papo estiveram presentes Carlos Aldan, CEO do Grupo Kronbery, Miguel Setas, CEO do grupo EDP, Miguel Saldívar, CEO da Soft Tek e Marc Keichardt, CEO da Bayer. Para estes quatro homens, as perspectivas para o país não são tão ruins quanto parecem ser. Contudo, é preciso resgatar valores para conduzir ao crescimento.

No Brasil, Segundo Miguel Setas, o mercado é grandioso e propício à expansão, porque possuímos talentos incríveis e recurso humano variado, excepcional e habilidoso. Marc Keichardt, que viveu no Brasil por 10 anos, voltou recentemente e dessa vez veio para ficar, expôs de forma muito entusiasmada o potencial do Brasil de crescer ainda mais.

“Mesmo o Brasil passando por um momento delicado, a possibilidade é de grande crescimento. É assim que percebo o país. Ele está em crescimento constante.” Miguel Setas reafirma também o discurso: “A realidade do Brasil comparada ao cenário português não é surpreendente. Isso porque Portugal se estabilizou e o Brasil continua em busca da sua estabilidade.

E por esse motivo, é mais fácil investir no Brasil, uma vez que há mecanismos que ajudam no crescimento do negócio”.

As primeiras dificuldades na gestão das organizações brasileiras

Para os expatriados, administrar empresas brasileiras é muito enriquecedor. Porque, de acordo com a visão deles, nós brasileiros reagimos rápidos diante dos problemas e temos a capacidade de nos relacionar com qualquer pessoa. E, principalmente, temos uma criatividade excepcional para lidar com as mais diversas situações.

Entretanto, uma das grandes dificuldades que as organizações geridas por CEOs estrangeiros enfrentam é ter a capacidade de fazer uma leitura correta do cenário brasileiro e de compreender a nossa cultura. Segundo Miguel Sadívar, o Brasil e o México, embora parecidos, possuem uma cultura muito divergente no que diz respeito às leis e à constituição dos processos de negócios. E essas diferenças culturais são grandes dificultadores na negociação intercultural, que envolvem gerenciamento de times multiculturais e também o desempenho dos executivos.

Cultura de Transformação e o confronto com a zona de conforto

De acordo com os autores Hampden-Turner e Trompenaars[1], “a cultura é a maneira pela qual um grupo de pessoas resolve determinados problemas universais. Todas as pessoas de qualquer lugar do mundo são confrontadas por determinados problemas universais relacionados com pessoas, com a passagem do tempo e com o ambiente.” E podemos classificar as soluções específicas a estes problemas universais em sete dimensões sobre as quais diferentes culturas se contrapõem:

  1. Individualismo vs. comunitarismo: Momento que o indivíduo se coloca em primeiro lugar ou como parte de um grupo.
  2. Universalismo vs. particularismo: Como o indivíduo julga o comportamento humano. Em alguns casos se sentem obrigados a seguir padrões culturais.
  3. Neutro vs. afetivo: Relaciona-se com a emoção e a razão nas relações.
  4. Status alcançado vs. status atribuído: Relacionado àquilo que o indivíduo realiza e com aquilo que o indivíduo é.
  5. Específico vs. difuso: relacionamento do indivíduo com os outros, podendo ser apenas profissional ou ambos, isto é, profissional e pessoal.
  6. Tempo sequencial vs. sincrônico: refere-se à importância que as culturas dão ao passado, presente e futuro.
  7. Internamente orientado vs. externamente orientado: Relacionado à atitude do indivíduo ao meio ambiente.

A partir do momento que um expatriado passa a conhecer a cultura brasileira e entender nossas particularidades, ele passa a compreender também a história e o contexto em que estamos inseridos e acaba relacionando-os com sua própria trajetória de vida e cultura. Dessa maneira, identificam-se valores e abrem-se as relações, facilitando o processo de gestão.

Mas, nem tudo são flores. Apesar de terem uma visão mais dinâmica do brasileiro, os expatriados se veem na missão de manter as equipes sempre engajadas e em crescimento para que sejam bem-sucedidas. A percepção é que o brasileiro se desmotiva muito fácil, não usa sua habilidade e criatividade, sendo comum esperarem que seu líder ou alguém os motivem. Dessa maneira, os expatriados questionam-se como desenvolver lideranças e dar a eles oportunidades de construírem carreiras de modo produtivo. Infelizmente, muitas organizações passam por situações como essa, principalmente pela instabilidade política e econômica em que vivemos atualmente, deixando todos inseguros quanto ao seu futuro.

O monstro dos expatriados: a burocracia brasileira

Sem dúvida, um dos grandes vilões para os expatriados é a burocracia exacerbada. O Brasil possui leis em excesso que são marcas da nossa cultura e que muito incomodam e dificultam a vida dos expatriados no país. A legislação brasileira precisa estar mais perceptiva e conectada ao mercado, promovendo melhorias na competitividade da gestão empresarial. Estamos vivendo um modelo disruptivo de negócio, tornando-se necessária mais velocidade, rapidez, agilidade e desburocratização em todos os processos.

Entender a lei brasileira é uma verdadeira missão. Há muitas leis e todas são complicadas e para piorar, elas podem ser interpretadas diferentemente por mais de um brasileiro que entenda de lei”

Portanto, a burocracia é algo que incomoda os expatriados. E ela impacta negativamente a gestão desses CEOs, acarretando diminuição na produtividade e altas cobranças dos gestores que ainda estão nos países de origem. E ligado a isso está a dificuldade em compreender previamente a cultura brasileira, dificultando a adaptação e consequentemente trazendo maior morosidade ao processo de crescimento nas empresas. Estes são os principais desafios que devem ser enfrentados pelos expatriados que estão como gestores de organizações. Desafios difíceis, mas que podem ser superados.

 

Deivison Pedroza
Presidente do Grupo Verde Ghaia

[1] HALL, E. T.; HALL, M. R. Understanding cultural differences. Yarmouth: Intercultural Press, 1990.


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